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Cannabis na doença de Alzheimer e nas demências

Equipe IFPB

Se você chegou até este texto cuidando de alguém com Alzheimer, provavelmente já ouviu falar que a cannabis "ajuda" de alguma forma. Vale a pena começar pelo que é mais importante saber: ela não trata o declínio de memória nem reverte o curso da demência. O que a pesquisa vem estudando é um sintoma específico, a agitação, e mesmo aí os estudos ainda são poucos, os resultados são mistos e a qualidade da evidência é considerada baixa. Quem cuida de um familiar com demência merece essa informação sem enrolação, antes de tomar qualquer decisão.

O que é a doença de Alzheimer

O Alzheimer é a causa mais comum de demência. Ele se caracteriza pela perda progressiva da memória e de outras funções cognitivas: linguagem, orientação, raciocínio, capacidade de realizar tarefas do cotidiano. Com o tempo, a pessoa passa a precisar de cuidados cada vez mais intensos.

Demência não é um diagnóstico único. Há outros tipos, como a demência vascular e a demência por corpos de Lewy. Em todos eles, o declínio cognitivo é o problema central e, até hoje, irreversível com os tratamentos disponíveis.

A cannabis não recupera a memória

Esse é o ponto mais importante deste texto: não existe evidência de que a cannabis ou qualquer canabinoide recupere a memória ou reverta o declínio cognitivo da demência.

Estudos em animais levantaram hipóteses interessantes sobre mecanismos neuroprotetores, mas hipótese de laboratório é uma coisa, benefício clínico é outra. Quando pesquisadores testaram canabinoides em pessoas com Alzheimer, o efeito sobre a cognição foi, na melhor das hipóteses, misto, sem melhora consistente. Qualquer afirmação de que a cannabis "trata o Alzheimer" ou "recupera neurônios" simplesmente não tem amparo na literatura científica atual.

Onde a pesquisa está focada: a agitação

Pessoas com Alzheimer moderado a grave frequentemente apresentam sintomas comportamentais como agitação, agressividade, ansiedade e distúrbios do sono. Quem cuida sabe: esses são, muitas vezes, os sintomas mais desgastantes no dia a dia, tanto para quem cuida quanto para quem é cuidado.

É nesse campo, o dos sintomas comportamentais, e não dos cognitivos, que a pesquisa com canabinoides tem avançado com mais cautela.

O que os estudos dizem (e o que não dizem)

Um ensaio clínico randomizado conduzido por Herrmann e colaboradores, publicado no American Journal of Geriatric Psychiatry em 2019, testou o nabilone (um canabinoide sintético) em pacientes com Alzheimer moderado a grave. O resultado: o nabilone reduziu a agitação em comparação ao placebo. Mas os pacientes que o receberam apresentaram mais sedação, e os efeitos sobre a cognição foram mistos, sem melhora clara (DOI: 10.1016/j.jagp.2019.05.002).

Uma revisão sistemática publicada em Clinical Gerontology por Charernboon e colaboradores (2020) chegou a conclusões parecidas: o nabilone pode ter algum papel na agitação, mas não há evidência convincente para o THC, e nenhum estudo demonstrou efeito sobre os sintomas cognitivos. Os próprios autores foram diretos ao dizer que a qualidade da evidência é baixa e que ainda é cedo para conclusões definitivas (DOI: 10.1080/07317115.2020.1742832).

A revisão Cochrane de Bosnjak Kuharic e colaboradores (2021), uma das análises mais rigorosas da literatura sobre o tema, avaliou os poucos estudos existentes e concluiu que não é possível ter certeza de benefício dos canabinoides na demência. Se houver algum efeito, ele pode ser pequeno demais para fazer diferença na prática clínica. A sedação foi o efeito adverso mais frequente entre os participantes (DOI: 10.1002/14651858.CD012820.pub2).

Sedação e risco de queda no idoso

A sedação não é um efeito trivial em pessoas idosas. Ela aumenta o risco de quedas, um dos principais motivos de hospitalização nessa faixa etária, e pode dificultar ainda mais a comunicação e a avaliação clínica do paciente.

Por isso, qualquer uso de canabinoides em pessoas com demência exige acompanhamento próximo de um geriatra ou neurologista. O idoso com demência merece cuidado redobrado: a metabolização de medicamentos é diferente, as interações com outros fármacos são mais frequentes e os efeitos adversos tendem a ser mais intensos.

O que esperar de uma consulta

Se você está acompanhando alguém com Alzheimer ou outra demência e quer entender se há algum papel para a cannabis medicinal no manejo dos sintomas comportamentais, a conversa começa com o médico que acompanha o caso.

O especialista vai considerar o quadro completo: quais sintomas estão presentes, que medicamentos já são usados, qual o grau de comprometimento cognitivo e qual o estado geral da pessoa. A cannabis pode fazer parte de uma estratégia, mas nunca é o primeiro passo, e nunca deve ser usada sem supervisão.

A ANVISA regulamenta o uso de produtos à base de cannabis no Brasil. Informações oficiais estão disponíveis em gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/cannabis.


Se você quer entender melhor como a cannabis medicinal funciona no contexto de uma associação sem fins lucrativos, veja como funciona. Para falar diretamente com a nossa equipe, entre em contato pelo formulário.

Este artigo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a avaliação médica individualizada — o uso de canabinoides em pessoas com demência deve ser discutido com o geriatra ou neurologista responsável pelo acompanhamento do paciente.